Nostalgia da maminha

A Alice está doente outra vez. Temperaturas máximas de 40 graus. Tem uma otite no ouvido direito. Acordámos de madrugada com ela a ferver, ligámos para a Saúde24 a pedir orientação, colocámos paninhos frios na testa e no corpo para baixar a febre. Aconcheguei-a no meu colo e acalmei-a. A febre baixou e adormeceu junto a mim. Não sei se é por ela estar assim doente e tão vulnerável, mas nos últimos dias tenho sentido uma certa nostalgia dos primeiros meses da Alice. Não sei se é por já ter passado quase um ano desde que ela nasceu e por já não estar a dar maminha. Mas sinto falta desse momento só nosso.

Desejo de amamentar

Foi algo que sempre desejei, amamentar, e no início foi particularmente difícil. Com apenas duas semanas de vida, a Alice não estava a fazer uma boa pega. Fiquei com o peito ferido e a sangrar. Quando no centro de saúde me disseram que não podia amamentar até estar sarada, entrei em pânico. Chorei imenso. Ela era tão pequenina, precisava do meu leite e do meu calor. Como podia sustentá-la com o biberão? E se depois ela não quisesse mais a maminha? Felizmente, as enfermeiras do centro de saúde de Setúbal que me acompanharam ajudaram-me bastante, acalmaram-me, e disseram que ía correr tudo bem. Disseram-me que a Alice ía voltar a pegar no peito e que quando eu estivesse preparada podia voltar ali para me ensinarem algumas técnicas que podiam tornar a tarefa mais fácil – nunca esquecerei todo o apoio prestado pela enfermeira Dora. A namorada de um amigo nosso emprestou-nos uma bomba eléctrica e comecei a extrair leite para o biberão. Tinha bastante leite, felizmente, e a Alice adaptou-se bem. O L. ajudou bastante. Esterilizava os biberões e certificava-se de que tudo estava imaculado! Algumas semanas depois, comecei lentamente a pôr a Alice na maminha. E não foi fácil. Algumas amigas que também tiveram que deixar de amamentar, diziam-me que mais valia desistir, que era muito sofrimento, para elas e para o bebé, e que o mais importante era eu alimentá-la e deixá-la saudável, ainda que com biberão. Mas eu insisti. Nas primeiras tentativas a Alice chorava, eu chorava, o L. não sabia o que fazer.

Processo de aprendizagem

São poucas as mães que conseguem amamentar bem à primeira. Existem instintos que ajudam – como o facto do bebé conseguir chegar ao peito da mãe através do cheiro e abrir a boca em direcção a ele – mas a amamentação é um processo de aprendizagem e de encontro entre dois seres, a mãe e o bebé, que estão a aprender a conhecer-se.  Infelizmente, ninguém nos diz isso, e sentimo-nos culpadas quando não conseguimos. Foi aí que comecei a ler algumas coisas e a procurar a posição certa para nós. E depois de algumas tentativas, encaixámos. Deixava a Alice mamar sempre que ela queria, adormecia com ela na mama muitas vezes. Dava de mamar quando ela tinha fome, quando ela tinha sono ou simplesmente para dar-lhe conforto. E ela estava feliz e saudável.

Quando regressei ao trabalho, foi difícil manter a amamentação e por volta dos 8 meses, a Alice passou a tomar leite adaptado (com a introdução das restantes refeições de sopa/papa/fruta desde os 5 meses). Achei que estava na altura certa, mas o que é certo é que tenho pensado se terei tomado a decisão certa. Se calhar devia ter prolongado mais o tempo de amamentação, pelo menos até a Alice fazer um ano de vida. De qualquer forma, são escolhas que se fazem, assim como há mulheres que decidem não amamentar pelos mais variados motivos, e não podemos pôr essas escolhas em causa. Porque por detrás de um motivo, pode haver uma mãe/mulher magoada, triste e frustrada, que não pôde amamentar e não deve ser julgada por isso.

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