É possível conciliar o trabalho com a amamentação?

A minha colega M. terminou a licença de maternidade e regressou ao trabalho há uns dias. Optou pelos 4 meses a 100%, deixou a bebé com os avós, mas ainda está a amamentar. No primeiro dia de trabalho, viu-se confrontada com uma realidade bem comum para todas as mulheres que acabaram de ser mães e têm que voltar à vida profissional, mas que ainda estão a amamentar. E agora? Será que a bebé vai suportar a minha ausência? Como vou conciliar o trabalho com a amamentação? Será que consigo aguentar tantas horas sem dar de mamar? Como é que o meu corpo vai reagir? E se optar por extrair leite durante o horário de trabalho? Onde posso fazê-lo e a que horas? Terei privacidade? Como posso conservar o leite até chegar a casa?

A angústia do regresso ao trabalho

A M. chegou com todas estas dúvidas no primeiro dia de regresso ao trabalho. Poucas horas depois, começou a sentir o peito a encher, o calor a subir e a sentir-se desconfortável. Aguardava que o pai da sua filha fosse levar-lhe a máquina de extracção de leite durante a hora de almoço para que ela pudesse aliviar um pouco toda aquela tensão. Quando já tinha a máquina consigo, tentou procurar uma sala onde se sentisse confortável e à  vontade, mas não encontrou nenhum local adequado. Orientada pelas senhoras da limpeza, a M. dirigiu-se a uma copa com acesso reservado e lá conseguiu fazer a extracção de leite materno com alguma privacidade.

Recordei o meu primeiro dia de regresso ao trabalho. Ao contrário da M. optei pelos 5 meses de licença a 80% e pus férias logo a seguir. Prolonguei o mais que pude. A Alice foi para a creche a uma semana de completar os 6 meses porque os avós não podiam ficar com ela. Mas também eu cheguei com as mesmas perguntas. Também eu senti o peito a crescer à medida que as horas passavam, olhava para o relógio e só pensava: “são só 6 horas, daqui a pouco já estou com ela nos meus braços”. A minha máquina de extracção de leite não era muito prática e optei por não levá-la comigo, porque não queria fazê-lo no WC e seria complicado ter privacidade noutro local da empresa. Lembro-me que nesse dia cheguei a casa com a blusa completamente encharcada. Para além disso, como trabalho a 30 km de casa e os horários dos meus transportes não eram compatíveis com os horários de trabalho, cerca de 90 minutos das duas horas que tinha para a amamentação eram gastos nos transportes públicos, desde o momento em que saía do trabalho até chegar a casa.

Direito à amamentação

Partilho estas histórias, a da M. e a minha, porque é preciso contar estas histórias. É preciso mudar a forma como as médias e grandes empresas lidam com a questões da maternidade. É preciso contar estas histórias para que as mulheres que são mães e que decidem amamentar não vejam na sua carreira profissional um impedimento para as suas escolhas familiares.  Partilho estas histórias porque é importante mudar as leis que protegem o direito à amamentação, torná-las mais efectivas, pôr todas as questões que têm a ver com a parentalidade na ordem do dia e tornar a licença de maternidade durante o primeiro ano de vida do bebé ou até pelo menos aos 6 meses, uma realidade. Partilho as nossas histórias, para que todas as mulheres que queiram cuidar dos seus bebés em pleno possam fazê-lo um dia.

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